Calor e chuva ‘desentocam’ insetos, escorpiões e aranhas por Bauru

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Escorpião vivo recolhido pelo Centro de Controle de Zoonoses nos últimos dias, em Bauru. Marcele Tonelli

O calor intenso e as chuvas dos últimos dias deram cara de verão à primavera, que deve se encerrar em 21 de dezembro. O tempo abafado antecipou a temporada dos insetos. Além de baratas, besouros e mosquitos, que não escolhem endereços e estão por toda parte, alguns bairros da cidade também têm registrado problemas envolvendo aranhas e escorpiões, que desentocam para se alimentarem.

O JC nos bairros desta semana faz alerta ao problema. Nas próximas páginas, histórias de moradores que têm lidado cotidianamente com a invasão de insetos e aracnídeos em casa, independentemente do bairro. As formas de combate mais utilizadas e o reflexo do fenômeno no mercado, que já sente aumento nas vendas de inseticidas e na procura por serviços de dedetização também foram contemplados.

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O vendedor do setor agropecuário da Agrosolo Ricardo Luiz Gomes Faria Pereira diz que percebeu uma elevação de 25% nas vendas de baraticidas nos últimos três meses, em relação às demais épocas do ano. Douglas Reis

METABOLISMO ESTIMULADO

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Segundo o biólogo Roberto Marono, o calor intenso estimula o metabolismo dos insetos, que começam a aparecer mais e estimular maior presença de alguns predadores, como os aracnídeos

Biólogo da Unesp em Bauru e especialista em animais peçonhentos, Roberto Marono explica que o calor intenso estimula o metabolismo não só das baratas, mas também dos demais insetos e até de alguns aracnídeos, que começam a aparecer mais para predar.

“Entre a primavera e o verão, na região de Bauru, cai muita chuva, cuja água vai para a rede de esgoto, onde estes insetos estão entocados. Isso faz com que saiam deste local e busquem abrigo em outros lugares, como as residências”, explica.

800 FILHOTES EM 6 MESES

As baratas deixam a rede de esgoto, geralmente, para fugir do excesso d’água e optam por ambientes que apresentam restos de comida. Como elas são o principal alimento dos escorpiões, o aumento desencadeia maior número destes animais peçonhentos, principal preocupação do poder público.

Marcele Tonelli
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Escorpião vivo recolhido pelo Centro de Controle de Zoonoses nos últimos dias, em Bauru

“A barata vive até seis meses e pode gerar até 800 filhotes. Em localidades próximas aos cemitérios, há um grave problema nesta época, porque a barata e os escorpiões entram nos túmulos pelas frestas, onde o veneno não alcança muitas vezes”, comenta o pesquisador.

Inclusive, o Jornal da Cidade já recebeu diversas reclamações de moradores que residem perto dos cemitérios e terrenos sujos.

Em 2017, a prefeitura registrou 199 ocorrências de pessoas atendidas pelas unidades de saúde, após serem picadas por escorpiões.

De janeiro a setembro deste ano, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) recebeu 25 chamados só envolvendo escorpiões. E a expectativa é que este número aumente daqui pra frente.

A batalha contra ‘eleZZZZZ’

Malavolta Jr.
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“Essa época de chuva é um pesadelo pra nós”, diz Rute Azarias, mostrando dois escorpiões encontrados em sua casa nos últimos dias

Rute Azarias mal deu fim em um pote grande de maionese com 300 escorpiões mortos – que juntou durante capturas em casa no último verão – e já iniciou uma nova coleção. Nas duas últimas semanas, a casa em que ela mora com a mãe e os filhos de 12 e 14 anos, no Jardim Redentor, voltou a ser invadida por insetos e animais peçonhentos.

“Essa época de chuva é um pesadelo pra nós. Todo dia aparecem baratas, elas voam e caem na gente dormindo. E os pernilongos, então, nem se falam, aparecem nuvens deles e o repelente não vence”, reclama a mulher de 42 anos, atualmente desempregada e moradora da quadra 5 da rua Santa Matilde, próximo a um cemitério municipal.

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Marta Azarias e a filha Layara Azarias mostram o arsenal da família para ajudar enfrentar a temporada de insetos: raquete elétrica, inseticidas, venenos variados e repelentes

No endereço, quase todo mundo da família dela já foi picado por escorpião. “Fui picada no pé, dá uma dor insuportável e queimação. Eram dois e estavam atrás do fogão. Já encontramos também na bucha da cozinha, no sofá”, comenta dona Aracy Maria Azarias, 81 anos, mãe de Rute.

Há anos a família pensa em dedetizar o imóvel, “mas é muito caro, não temos condições. E eu estou desempregada”, completa Rute.

DESVALORIZADO

Elas contam que também já tentaram vender a casa, mas nunca deu certo. O fato de o imóvel estar situado em frente a um cemitério, muitas vezes foco do problema, é o que mais atrapalha e desvaloriza, segundo as moradoras.

“Vivemos mas de 30 anos aqui. Nem alugar o povo quer. Eles chegam pra ver a casa e logo percebem o problema”, afirma Rute.

EQUIPADAS

A alguns metros dali, Marta Azarias, 40 anos, também parente, conta a saga que tem sido receber amigos ou parentes em casa, na rua São Lázaro.

“A gente tem que ficar oferecendo repelente, porque a pessoa conversa se batendo toda para afugentar os pernilongos. Dá uma vergonha só” narra Marta.

Para enfrentar a temporada de insetos, que já começou por lá também, a família dela se equipou com um arsenal para a batalha contra bichos invasores: raquete elétrica, inseticidas e venenos variados e repelentes comerciais e feitos em casa com álcool e citronela.

“Dormimos com o ventilador ligado no rosto e coberta no corpo todo para afugentar os pernilongos, besouros e baratas voadoras”, exemplifica Marta.

Marcele Tonelli
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Mayla Meryellen colocou telas e protetores nas portas para evitar a invasão de besouros, aleluias, baratas e aranhas em casa

VILA NIPÔNICA

Na rua Tihiro Koikeda, quadra 3, na região da Vila Nipônica, a enfermeira Mayla Meryellen, 40 anos, tem se virado como pode para evitar a invasão de besouros, aleluias, baratas e aranhas em casa, onde mora com o marido e os filhos de 2 e 6 anos.

“Colocamos telas nos ralos e janelas e protetores em todas as portas. À noite, deixamos quase tudo apagado para os besouros não invadirem, mesmo assim alguns entram”, cita Mayla.

Sirlene Sclauzer/ Divulgação
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Moradora tem encontrado até cobra em sua casa

JARDIM COLONIAL

No Jardim Colonial, a professora Sirlene Sclauzer, 52 anos, também tem travado batalha rotineira contra os insetos, aracnídeos e até cobras. Na casa dela, que fica na quadra 2 da
avenida Osvaldo Alvarenga Tavano, um ninho de lacraias foi flagrado há aproximadamente duas semanas.

“Estavam na parede da lavanderia e eu não sabia o que era. Depois que um professor de cursinho me falou que filhotes de lacraia fui novamente olhar, mas eles já não estavam mais lá, tinham crescido”, comenta a moradora.

Escorpiões também têm sido encontrados com frequência por ela. Para Sirlene, os terrenos com mato alto e sujos próximos à sua casa seriam o pivô do problema.

Dedetizadoras e lojas que vende pesticidas já sentem aumento

Proprietário de uma dedetizadora em Bauru, Mauro César Cruz afirma que, entre os meses de setembro, outubro e novembro, a procura pelo serviço aumenta em 30%. E vai além: em dezembro, a demanda chega a dobrar, devido ao forte calor.

Quioshi Goto/JC Imagens
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Mauro César Cruz afirma que as suas vendas dobram durante o calorão, principalmente, no mês de dezembro

Para ele, que é proprietário da Bauru Dedetizadora, os principais alvos dos bauruenses são as baratas e os escorpiões. “O recomendado é fazer a dedetização a cada seis meses. Em área comercial, o serviço deve ser realizado de três em três meses. Porém, quem tem restaurante tem de fazer o controle mensal”, acrescenta.

Já o vendedor do setor agropecuário da Agrosolo, Ricardo Luiz Gomes Faria Pereira, percebeu uma elevação de 25% das vendas de baraticidas nos últimos três meses, em relação às demais épocas do ano. “Até neste inverno, quando tivemos alguns dias quentes, houve bastante procura”, constata.

Além das altas temperaturas, o vendedor acredita que o acúmulo de sujeira em terrenos baldios seja outro fator que leva à infestação das baratas. Entre os produtos mais procurados, ele destaca o inseticida que dilui em água para pulverização, o gel baraticida, além dos itens em forma de pó, inseridos em ralos e caixas de gordura.

SAÚDE PÚBLICA

O grande problema em relação ao aumento de insetos passa pela quantidade de moléstias que podem ser provocadas por eles.Além da dengue e leishmaniose causadas por mosquitos, as baratas e formigas, que também possuem mais atividade nesta época, por exemplo, podem contaminar alimentos.

Já os escorpiões trazem risco por conta da picada, que pode até levar a morte. Os cupins também trazem transtornos, pelo poder de destruição de móveis inteiros e até de imóveis.

Combate passa por limpeza rotineira de casas e terrenos

Marcele Tonelli
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Veterinária e chefe da seção de controle de zoonoses, Valéria Medina, ao lado do agente de saneamento Dorival Tessari, que segura um escorpião vivo; mesmo morto, animal pode picar

Chefe da seção de controle de zoonoses, a veterinária Valéria Medina lembra que “a prefeitura tem o dever de prestar saneamento, mas que os munícipes devem manter o espaço que vivem em ordem. O lixo, restos de materiais orgânicos e o mato alto colaboram com a infestação de insetos”, pontua.

Segundo ela, o entupimento de bueiros é um dos motivos que mais levam insetos a desentocar.

O CCZ age priorizando chamadas de munícipes em virtude da demanda. Casos envolvendo escorpiões são, geralmente, atendidos no mesmo dia. “Um grave problema envolvendo piolho de pombo em um local, por exemplo, é urgente, mas não emergencial. Outro exemplo são terrenos sujos, o fiscal também vai até lá para verificar e autuar o proprietário, mas isso leva alguns dias”, explica.

CUIDADO

Ela ainda ressalta que é preciso cuidado ao manusear animais peçonhentos. “Mesmo morto, o escorpião pode picar, por causa do veneno inoculado. A melhor coisa a se fazer ao encontrar um animal peçonhento ou que apresente alguma ameaça é cobri-lo com um recipiente transparente e passar um papel embaixo para fechá-lo”, ensina a veterinária.

Na sequência, o CCZ deve ser comunicado para prestar orientações.

SERVIÇO

Em caso de encontro de animais peçonhentos, o CCZ deve ser acionado: (14) 3103-8050 ou (14) 3103-8056. Funciona de segunda à sexta, das 8h às 17h.

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