Brasil poderá ter um aumento de 50% de casos de malária em 2018

Projeção é feita após alta de registros da doença em janeiro a março; ministério alega que há falhas na prevenção em alguns municípios

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Temor é de que medicamento usado para tratar a doença se torne pouco eficaz Foto: REUTERS/Jim Gathany/CDC/

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2018 | 03h00

BRASÍLIA – Projeção feita pelo pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz Cláudio Mairovitch aponta que o Brasil poderá ter um aumento de 50% de casos de malária neste ano. Até  março, o País registrou 50 mil infecções. Pelos cálculos do pesquisador, feito com base nos dados de janeiro e fevereiro, até dezembro os casos poderão chegar a 293 mil. O avanço esperado é de proporção semelhante a que foi identificada em 2017.

Depois de seis anos de queda, a malária voltou ano passado a aumentar no País, preocupar autoridades sanitárias e especialistas. “Estávamos num ritmo de declínio muito significativo. Mas a doença perdeu prestígio político, as ações de prevenção foram deixadas de lado e os casos voltaram a aumentar”, afirmou o professor da Universidade de Brasília, Pedro Tauil. Em 2017, foram notificados no País 193 mil casos, 50% a mais do que o registrado no ano anterior.

Diante do aumento de casos, comitê assessor decidiu na semana passada preparar uma carta de alerta para o governo brasileiro. Tauil resume: “O programa perdeu prioridade para outras doenças que atingem grupos com maior poder de reivindicação, como a população urbana. Os recursos foram transferidos para dengue, zika e chikungunya. Malária perdeu recursos financeiros e recursos humanos”.

A retomada de crescimento da doença por dois anos consecutivos ocorre pouco tempo depois de o Brasil comemorar o avanço no combate à malária. “Vínhamos numa trajetória animadora, com queda sustentada. Em 2016, chegamos a alcançar 128 mil infecções, o menor número da história”, diz Mairovitch. Na época, avisos já haviam sido dados para autoridades não baixarem a guarda. “Esse é um problema comum. Quando a doença começa a cair, a atenção se dispersa”, completa.

O secretário de Vigilância em Saúde, Osnei Okumoto,  atribuiu o aumento de casos nos últimos dois anos a falhas na prevenção que deveria ser feita por municípios. Assim como Tauil, ele afirmou que algumas cidades acabaram priorizando o combate ao Aedes aegypti, deixando em segundo plano as medidas de contenção da doença, transmitida pela picada do mosquito anopheles infectado. Okumoto observa que o avanço foi mais expressivo em 35 cidades da Amazônia Legal. “Juntas, elas respondem por 80% dos casos atuais.”O secretário afastou qualquer relação do aumento com a imigração de pessoas procedentes da Venezuela.

Com a retomada do avanço, fica ainda mais distante a meta de se eliminar a transmissão de uma das formas da doença, provocada pelo protozoário Plasmodium falciparum. Integrantes do comitê julgam essencial controlar a malária País o quanto antes, sobretudo diante da ameaça de que o medicamento usado para tratar a doença se torne pouco eficaz. Na Ásia, o plasmódio já desenvolveu resistência ao medicamento. “O que desejávamos era evitar que isso ocorresse, eliminar a transmissão no Brasil antes da chegada do protozoário resistente.” Okamoto reforça a preocupação. “Por enquanto, a medicação tem sido eficaz. Mas o ideal é reduzir ao máximo o número de casos.”

Uma das providências para se evitar a expansão da doença é o uso de mosquiteiros impregnados por inseticidas. A medida começou a ser usada no País em 2011. Num projeto piloto, 1,1 milhão de mosquiteiros foi distribuído em municípios  prioritários. Desde então,  nenhuma outra compra centralizada foi realizada. Okamoto afirmou que recursos foram repassados para que Estados e municípios fizessem a operação.

“Há tempos o ministério afirma que vai fazer uma compra. Mas isso nunca se concretiza”, diz Tauil. Okamoto informou que o ministério adquiriu  300 mil mosquiteiros. A chegada do material é esperada para junho. Além disso, foi encomendada  mais 500 mil unidades. “Pesquisas mostram que a maior parte dos casos ocorre entre crianças e adolescentes. O horário de maior atividade dos mosquitos é no início do dia e no entardecer. Daí a importância das redes”, afirma o secretário.

A recomendação também é reforçar no diagnóstico rápido e o tratamento precoce. “Isso evita o ciclo, se há poucas pessoas doentes, menor o risco de o mosquito se contaminar e, com picada, transmitir a doença para outras pessoas”, afirma o secretário. Amazonas registra o maior número de casos da doença neste ano. Até março, foram 18.810. Em seguida, vem o Pará, com 10.502 e Acre, com 9.779. Roraima tem 5.901 e o Amapá, 2.707. Rondônia, 1.679.

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