Estudada a pulverização estratégica combate ao Aedes aegypti

Bloqueio químico no Controle de Mosquitos, chega a eficiência de 96%.

0
198

A dengue e outras doenças transmitidas pelos mosquitos deixaram de ser apenas uma preocupação dos  países tropicais, como Angola. Há o registo do aumento de casos, por exemplo, das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti em países de climas mais temperados.

Preocupados com essa tendência, cientistas da Austrália e dos Estados Unidos resolveram investigar se o uso mais estratégico do insecticida pode ajudar a diminuir as infecções. Numa experiência realizada na cidade australiana de Cairns, os cientistas observaram que pulverizações regulares de insecticida nos locais com ocorrências expressivas de dengue reduzem em até 96 por cento o número de casos, comparando com as áreas sem a aplicação do veneno.
Os autores do estudo, publicado na última edição da revista “Science Advances”, acreditam que os resultados podem ajudar também no combate a outras doenças transmitidas pelo mesmo mosquito, nomeadamente zika e chikungunya.
A pesquisa começou muito antes do surgimento dessas novas ameaças à saúde humana.
“Na minha investigação, estive interessado em quantificar o impacto de ferramentas de controlo do Aedes aegypti. Em 2010, publiquei um trabalho a mostrar que a aplicação de insecticidas residuais teve impacto positivo na prevenção da dengue, mas esse estudo não foi capaz de quantificar o quanto ela foi reduzida”, disse Gonzalo Vazquez-Prokopec, pesquisador da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, e um dos principais autores do artigo.
Na pesquisa, que também contou com a participação de cientistas da Universidade James Cook, da Austrália. Foram utilizados dados sobre 902 casos ocorridos durante um surto que eclodiu entre 2008 e 2009 e que se espalhou por toda a área metropolitana de Cairns. Como parte do programa de saúde local, enfermeiros pediram às pessoas infectadas que identificassem os locais onde acreditavam que foram contaminadas.
“Chamamos de hotspots às áreas que mostraram um elevado número de ocorrências da doença. Residentes de regiões próximas a Cairns, na grande maioria, foram infectados no centro da cidade e não nos seus arredores”, explicou Gonzalo Vazquez-Prokopec. Foi aplicado insecticida nos domicílios que estavam a menos de 500 metros dos chamados hotspots e, à medida que a epidemia progredia, as pulverizações aumentaram e atingiram 5.428 locais ao longo de 31 semanas.
Nem todos os hotspots receberam as doses regulares do produto químico, para permitir aos pesquisadores realizar comparações com as taxas de transmissão de dengue nas áreas pulverizadas e não pulverizadas. Como resultado, constataram que o lançamento regular de insecticida reduziu a probabilidade de transmissão do vírus da dengue entre 86 e 96 por cento, em comparação com as áreas que não foram pulverizadas.
Helena Brígido, integrante do comité de arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia, avalia que os resultados são interessantes, mas que, isoladamente, a técnica não é suficiente para combater a dengue.
“Essa diminuição é algo importante, mas não pode ser vista como medida principal. Essa técnica deve ser usada como uma forma auxiliar de combate à dengue”, ressalta a especialista, que não participou no estudo.
Helena Brígido alerta ainda que a pulverização não extermina o mosquito causador de tantas enfermidades, pois não atinge os seus ovos, que são bastante mais resistentes. “O combate aos locais de desenvolvimento é sempre prioridade porque, neles, os insectos vão se reproduzir e proliferar. Esses insecticidas matam apenas os insectos adultos”, explica.
Para a infectologista,  o melhor instrumento de combate à dengue e outras doenças causadas pelos mosquitos continua a ser o empoderamento da população.
“É preciso que as pessoas saibam o que devem fazer para evitar o surgimento dos focos do mosquito. Assim, elas poderão aplicar as medidas em casa, no seu bairro. Por isso, as campanhas educativas são uma das medidas mais importantes. O que não quer dizer que a população substitua o Estado, de forma alguma, mas, juntos, as hipóteses de sucesso aumentam”, concluiu Helena Brígido.

Deixe seu Comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here