O futuro das arboviroses

Devemos conviver por muitos anos com a tríplice epidemia de arboviroses; reflexo de um complexo contexto de ineficácias do poder público e da sociedade

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Há uma vasta experiência acerca do comportamento epidemiológico da circulação dos quatro sorotipos do vírus da dengue (DENV); o grande questionamento que se tem atualmente prende-se aos seguintes fatores:

  • Qual é o efeito da circulação concomitante em praticamente todo continente americano do vírus chikungunya?
  • Qual é o efeito da circulação concomitante em praticamente todo continente americano do vírus zika?

O impacto global trazido pela circulação do vírus da dengue é enorme. Há estimativa de 50 milhões de infecções por esse vírus por ano abrangendo aproximadamente 100 países do mundo. As condições favoráveis à proliferação do mosquito transmissor observadas em vários locais do mundo fazem com que as perspectivas quanto à uma disseminação ainda mais ampla sejam preocupantes.

À medida que o Aedes aegypti evoluiu e passou a se tornar intimamente associado aos habitats dos seres humanos, preferencialmente neles se alimentando e compartilhando seus domicílios, essa espécie se tornou vetor extremamente eficiente do vírus da dengue, quando o mesmo foi introduzido, inicialmente nas cidades portuárias. Essas foram as condições que consubstanciaram as grandes pandemias de dengue relatadas durante os séculos XVIII, XIX e início do século XX, quando nos recordamos que essa foi uma época de forte desenvolvimento da indústria naval, que se deu paralelamente à grande urbanização das cidades portuárias, em resposta ao amplo incremento no tráfego oceânico.

Enquanto na década de 1960, mais da metade da população que habitava o Brasil residia em zonas rurais, os números observados em 2010 mostram que 84,4% da população reside em regiões urbanas. Essa inversão se deu sem que toda a necessária infra-estrutura de saneamento básico requerida fosse implementada. A falta no abastecimento de água e de coleta de lixo está relacionada ao alto número de casos de dengue nas cidades. Dos 48 municípios com risco de surto da doença no verão de 2012, 62,5% tinham menos da metade das casas com acesso ao saneamento adequado.

A situação atual e preocupante das arboviroses no Brasil reflete um complexo contexto, no qual interagem entre si ineficácias gerais de atuação do poder público e da sociedade em geral. Assim, deve-se buscar soluções para essas epidemias e também manter planos de combate eficientes contra a febre amarela, cuja transmissão igualmente ocorre pelo Aedes aegypti, sendo que sua migração em massa para o ambiente urbano não deve ser descartada, principalmente porque já houve constatações de casos esporádicos de febre amarela em centros urbanos brasileiros.

Os condicionantes da expansão das arboviroses nas Américas e no Brasil são similares e referem-se, em grande parte, ao modelo de crescimento econômico implementado na região, caracterizado pelo crescimento desordenado dos centros urbanos.

O Brasil concentra mais de 80% de sua população em áreas urbanas, com importantes lacunas no setor de infra-estrutura, tais como dificuldades para garantir o abastecimento regular e contínuo de água, assim como também é deficiente a coleta e destinação adequada dos resíduos sólidos. Outros fatores, tais como a acelerada expansão da indústria de materiais não biodegradáveis, além de condições climáticas favoráveis, agravadas pelo aquecimento global, conduzem a um cenário que impede, pelo menos a curto prazo, a proposição de ações visando à erradicação do vetor transmissor.

Some-se a esse já sombrio panorama, o modelo de urbanização implementado em nosso país, assim como em muitas outras cidades que compõem essas sociedades do “capitalismo periférico”:

  • redução progressiva das áreas verdes das cidades às custas de empreendimentos imobiliários que tentam imitar o que se verifica nos países capitalistas “centrais”; empreendimentos estes situados em locais onde não há a menor infraestrutura de saneamento básico que os comporte.
  • nossas cidades estão cada vez mais impermeabilizadas: quando chove, não há onde a água ser drenada, constituindo-se drama frequentemente observado, as enchentes de nossas grandes cidades.

Temos sido bombardeados por informações, muitas vezes desencontradas, sobre diferentes métodos para combater a presença do mosquito Aedes aegypti em nossas cidades. Especial ênfase vem sendo dada ao combate domiciliar do mesmo, sobressaindo-se as informações acerca de como evitar a eclosão de larvas dos mosquitos que estiverem presentes nos vasinhos de plantas presentes dentro das casas e apartamentos da população.

Considero essa atitude uma maneira pela qual desviamos de uma abordagem mais objetiva do problema. Dentro desse panorama, onde se situaria a ênfase no combate domiciliar ao mosquito ? Em minha opinião, serve apenas para que retardemos o debate sobre a importância do saneamento básico no controle e possível futura erradicação do vetor. Creio, portanto, que dengue, chikungunya e zika estão intimamente correlacionados à problemática do saneamento básico. Encaremos isso de frente, não escamoteando a realidade através da valorização dos vasinhos de plantas presentes nas casas das pessoas.

Isso posto, esperamos expressiva circulação do vírus zika a partir do mês de novembro, principalmente nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil. Nossas mulheres devem permanecer atentas a essa situação e deve ser enfatizado os cuidados para evitar a picada do Aedes, através do uso de repelentes de forma correta.

Em relação à epidemia de infecções pelo vírus chikungunya, o comportamento epidemiológico se mostrou semelhante àquele observado inicialmente com o vírus da dengue:

  • Inicialmente, predomínio nas regiões Norte e Nordeste;
  • Após um ou dois anos, disseminação por todas regiões do Brasil.

Devemos ainda conviver por muitos anos com essa tríplice epidemia; a interação entre elas deve ser objeto de estudos aprofundados. Um dos aspectos a ser abordado diz respeito à dificuldade de melhor avaliação de vacinas, que devem abordar o questionamento quanto à imunidade cruzada.

Como exemplo, podemos levantar a seguinte dúvida, ainda longe de ser esclarecida: a presença de anticorpos contra dengue em uma pessoa leva à maior proteção ou ao aumento do percentual de casos graves quando essa pessoa for infectada pelos vírus zika ou chikungunya?

Quem faz Letra de Médico

Adilson Costa, dermatologista
Adriana Vilarinho, dermatologista
Ana Claudia Arantes, geriatra
Antônio Frasson, mastologista
Artur Timerman, infectologista
Arthur Cukiert, neurologista
Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião
Bernardo Garicochea, oncologista
Claudia Cozer Kalil, endocrinologista
Claudio Lottenberg, oftalmologista
Daniel Magnoni, nutrólogo
David Uip, infectologista
Edson Borges, especialista em reprodução assistida
Fernando Maluf, oncologista
Freddy Eliaschewitz, endocrinologista
Jardis Volpi, dermatologista
José Alexandre Crippa, psiquiatra
Luiz Rohde, psiquiatra
Luiz Kowalski, oncologista
Marcus Vinicius Bolivar Malachias, cardiologista
Marianne Pinotti, ginecologista
Mauro Fisberg, pediatra
Miguel Srougi, urologista
Paulo Hoff, oncologista
Paulo Zogaib, medico do esporte
Raul Cutait, cirurgião
Roberto Kalil – cardiologista
Ronaldo Laranjeira, psiquiatra
Salmo Raskin, geneticista
Sergio Podgaec, ginecologista
Sergio Simon, oncologista

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