A oferta de inseticidas capazes de matar os mosquitos transmissores do vírus zika e outros ainda é pequena em um momento em que o verão começa no hemisfério sul, região de forte incidência da doença, e surtos continuam sendo registrados em outras áreas.

O motivo é que a eliminação dos mosquitos transmissores de doenças é um negócio de nicho que possui barreiras de entrada elevadas.

“Nós podemos estar chegando a um beco sem saída”, diz Doug Carlson, diretor do Centro de Controle de Mosquitos de Indian River, em Vero Beach, no Estado americano da Flórida. “Em um futuro não muito distante, poderemos não ter produtos químicos que sejam eficientes.”

Autoridades da área de saúde dizem que o vírus zika foi recentemente detectado em várias pessoas em Brownsville, cidade do Texas, levando os centros para controle e prevenção de doenças dos Estados Unidos a alertar as mulheres grávidas a evitar a área. Novos casos ainda estão sendo identificados em Miami depois da epidemia de zika ter se estendido por meses, embora as autoridades digam que o vírus não esteja mais sendo transmitido localmente por mosquitos.

O mercado americano para inseticidas voltado para mosquitos é estimado em cerca de US$ 100 milhões em vendas anuais, uma pequena fatia do setor global de pesticidas de US$ 57 bilhões que é dominado por produtos para uso agrícola.

Desenvolver um novo inseticida químico e assegurar aprovação regulatória pode custar mais de US$ 250 milhões e levar quase uma década, segundo pesquisa da Phillips McDougall Ltd., consultoria de agroquímicos e biotecnologia de lavouras.

Isso explica em parte o motivo do mundo depender de um punhado de inseticidas para eliminar os mosquitos transmissores de doenças, a melhor forma de exterminar vírus como zika. Apenas duas classes de inseticidas — conhecidas como piretróides e organofostatos — têm sido usadas contra mosquitos adultos por cerca de 60 anos, diz Janet McAllister, entomologista pesquisadora da divisão de doenças transmitidas por vetores.

Piretróides são especialmente importantes porque eles podem matar mosquitos rapidamente em pequenas doses e são baratos de produzir e comprar, segundo Daniel Strickman, autoridade sênior de controle de vetores da Fundação Bill & Melinda Gates, que está financiando o desenvolvimento de novos inseticidas.

Ainda assim, o Aedes Aegypti, espécie de mosquito transmissor do vírus zika, desenvolveu uma “resistência muito forte” para os inseticidas piretróides em grandes áreas do mundo, diz Strickman.

Nos bairros infestados de mosquitos na Flórida, por exemplo, os piretróides continuam sendo o químico utilizado. Mas toda população de Aedes aegypti que os pesquisadores da Universidade da Flórida submeteu a testes desde meados do ano passado mostrou-se resistente aos piretróides, segundo Roxanne Connelly, professor de entomologia que supervisionou os testes.

Especialistas do setor e do controle de mosquitos temem que o arsenal pode ficar ainda menor se novas avaliações da Agência de Proteção Ambiental (EPA, da sigla em inglês) exigirem novos estudos dispendiosos sobre os efeitos dos químicos no meio ambiente e na saúde.

Outros tipos de inseticidas deixaram de ser produzidos por razões similares. O conglomerado químico alemão BASF SE não vende mais nos EUA um produto químico chamado temephos, que mata as larvas de mosquitos. A empresa e os fabricantes de inseticidas dos EUA que estavam comprando o temephos deixaram seu registro nos EUA vencer no fim de 2015 depois que a EPA requisitou novos estudos sobre seus efeitos, incluindo o potencial de interferir com o sistema endócrino humano.

“O custo dos estudos é de cinco a dez vezes as vendas anuais [dos EUA]”, diz Egon Weinmüller, líder de saúde pública da divisão de inseticidas da BASF. “Nós não pudemos encontrar uma forma de tornar esses custos praticáveis.” A BASF ainda vende o temephos em outros países, segundo ele.

Uma porta-voz da EPA disse que a agencia ofereceu a empresas que vendem o temephos a opção de trabalhar com programas de pesquisas financiados pelo governo para ajudar a pagar pela coleta de dados, e que as empresas devem tomar suas próprias decisões sobre a manutenção dos registros de seus produtos químicos na agência.

Ao mesmo tempo, a pressão do público tem crescido contra algumas alternativas aos piretróides. No início do ano, autoridades de saúde pública da Flórida pulverizaram uma área de Miami, na Flórida com um inseticida organofosfato chamado naled depois que os piretróides não funcionaram inicialmente. O naled é um inseticida valorizado por sua capacidade de eliminar mosquitos em grandes áreas e que rapidamente se desfaz no ambiente, ajudando a prevenir o desenvolvimento de resistência a seus componentes.

Embora os centros de prevenção e controle de doenças dos EUA e a EPA tenham garantido a segurança do naled, alguns moradores e autoridades demonstraram preocupação sobre os efeitos dos químicos criados quando os componentes do naled se degradam na saúde.

A American Vanguard Corp., que vende entre US$ 10 a US$ 12 milhões de naled nos EUA por ano, informa que o custo de manter o químico registrado nos EUA tem aumentado com o tempo à medida que a EPA exige mais estudos sobre seus efeitos. A naled está sofrendo uma avaliação de rotina da EPA, e a agência afirma que irá divulgar uma avaliação do risco à saúde humana para comentários públicos em 2017.

Eric Wintemute, diretor-presidente da American, disse que o naled será necessário quando outros inseticidas fracassarem. “Ele custa uma tonelada de dinheiro para nós, mas é importante”, disse ele.

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