Região está vulnerável a outro surto de dengue

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Um ano após ao estouro de casos de dengue no Grande ABC, as condições de áreas públicas e privadas espalhadas pelos sete municípios seguem vulneráveis para proliferação do Aedes aegypti, responsável pela transmissão da doença. Após o mosquito infectar no ano passado 7.230 pessoas e ter matado seis moradores na região, ações ineficientes por parte de moradores e prefeituras, segundo especialistas, continuam permitindo o acúmulo de entulhos e água parada em diversos pontos, o que na prática tem preocupado moradores e profissionais da Saúde para provável alta no número de casos da doença em 2017.

Após uma semana do início do verão, época propícia à procriação do inseto, a equipe do Diário percorreu pontos já conhecidos por serem áreas de descarte irregular de lixo e constatou ausência de manutenção em todos os locais. Na análise de especialistas, o fato, além de deixar evidente o despreparo da região para combater a doença no próximo ano, mostra a ineficiência dos trabalhos realizados por governantes e população.

“É dever do cidadão e de órgão públicos fiscalizarem (áreas com entulhos). A taxa da doença vem aumentando em meses que não são de costume. Isso retrata a mudança climática, mas também o trabalho ineficiente por parte de munícipes e prefeituras”, analisa o especialista Victor Hugo Bigoli, professor de Saúde Pública e Epidemiologia da Universidade Metodista de São Paulo.

Um exemplo da ausência de ações mais eficientes na limpeza de entulhos espalhados pela região pode ser visto em levantamento divulgado em novembro pelo Diário. Na ocasião, dados apresentados por cinco das sete cidades do Grande ABC (Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Ribeirão Pires) apontou alta de 12% no no número de pontos de descarte irregular de resíduos entre 2015 e 2016. Saltou de 454 para 509.

Em Santo André, por exemplo, dois pontos de descarte irregular de resíduos e um reservatório na Avenida Lauro Gomes evidenciam o cenário preocupante da região. Nos locais, pneus e móveis jogados em calçadas têm acumulado água parada, o que na prática facilita a proliferação do Aedes aegypti.“Tudo que o mosquito da dengue quer temos aqui. Isso é um perigo. Ligamos sempre para a Prefeitura realizar limpeza na área, mas não passa nem um dia, depois que o serviço é realizado, e os moradores de rua que vivem aqui perto já fazem outro lixão”, desabafa a dona de casa Neide Campanário, 47 anos.

Nem obras da própria Prefeitura escapam do cenário de abandono e acúmulo de entulho. Abandonada há cinco anos, a construção da USF (Unidade da Saúde da Família) Jardim Santo André, localizada na Rua Canossa, tornou-se um risco à Saúde das famílias que vivem no entorno. “Se eles queriam que a gente tivesse mais Saúde com essa obra, meu amigo, isso daqui virou um perigo para nós. Esse lixo só trouxe rato e aranha para nossas casas. A Prefeitura até limpa, mas não adianta nada. Com essa chuva o lixo entra todo em nossa casa. O pior de tudo são as pessoas usando droga aí dentro”, relata o comerciante Antonio José de Jesus, 49.

Segundo o Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André), a expectativa é de que ambos os locais recebam equipes de limpezas nesta sexta-feira.

Em São Bernardo, os riscos para a proliferação do mosquito Aedes aegypti assustam moradores na área central da cidade. Com obras atrasadas, o Piscinão do Paço tornou-se um dos pontos mais vulneráveis para o período de forte chuva. O reservatório acumula água parada em diversos pontos. “Sempre que passo pela passarela comento sobre a cor dessa água. Além de nojento é um baita perigo com a dengue chegando. Aqui perto trabalham muitas pessoas”, avalia a vendedora Janaína Batista, 23.

No município, moradores que residem na Estrada Samuel Aizemberg também já temem pelo pior. A área que passou por diversas desapropriações de residências em virtude da construção do Corredor Leste-Oeste acumula entulhos em toda sua extensão. “Ninguém faz nada. Vai começar outro período de chuva e os bichos vão começar a invadir nossas casas. Ano passado já teve gente com dengue aqui perto. Agora, provavelmente, vai se repetir”, desabafa o auxiliar de almoxarifado Adalberto Noberto dos Santos, 55.

Procurada para comentar os pontos propícios para a proliferação do mosquito, a administração municipal de São Bernardo não retornou aos questionamentos.

Áreas públicas e privadas de Diadema e Mauá também acumulam pontos de descarte irregular. No primeiro município, um dos pontos mais críticos está localizado na Favela Naval, núcleo que recebe obras de urbanização. Já no território mauaense, os perigos estão espalhados em áreas vizinhas ao Piscinão Petrobras, no Jardim Sônia Maria, e no Jardim Cerqueira Leite e Jardim Oratório.

BALANÇO

Dados divulgados por quatro prefeituras da região (Santo André, São Bernardo, Diadema e Mauá) apontam que neste ano o número de casos autóctones (contraídos no próprio município) de dengue confirmados teve queda de 74,52%. Foram 1.842 ocorrências neste ano, contra 7.230 em 2015.

Diferentemente de 2015 quando houve seis mortes ocasionadas pela doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, neste ano o Grande ABC não registrou óbitos ocasionados pela dengue.

O balanço de casos suspeitos de dengue apresentado pelo Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, em outubro, também apontou queda de 65% comparado ao mesmo período de 2015. Ao todo, foram contabilizados 9.573 caos em 2015, ante 27.272 no ano passado.

Para ministro, doença será o maior desafio do País em 2017

Em discurso feito nesta semana, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, afirmou que o combate ao mosquito Aedes aegypti será o maior desafio da Saúde do País no próximo ano. Previsões do próprio governo federal apontam para um provável aumento de casos de infecção pelo vírus chikungunya em 2017. “Temos que combater o mosquito. Esse é o grande desafio da Saúde até que a gente consiga um controle adequado”, avaliou o ministro.

Na análise do especialista Victor Hugo Bigoli, professor de Saúde Pública e Epidemiologia da Universidade Metodista de São Paulo, as previsões do governo federal podem se concretizar em virtude de diversos fatores, incluindo mudanças climáticas que o País tem enfrentado. “Estamos chegando ao momento mais crítico da transmissão da dengue. O período de verão, com temperaturas mais elevadas, chuvas, mesmo que em menor intensidade como prevista, e a chegada das férias, podem favorecer a proliferação dos mosquitos (Aedes aegypti), que são vetores da dengue”.

Segundo o especialista, o clima mais ameno e níveis adequados de umidade e chuvas aumentam consideravelmente a quantidade de criadouros disponíveis para o desenvolvimento das formas imaturas do vetor (mosquito), como também gera condições ambientais mais apropriadas para o desenvolvimento de adultos.”

Municípios do Grande ABC antecipam ações de conscientização

Com o objetivo de diminuir os casos de dengue no próximo ano, prefeituras do Grande ABC têm intensificado no fim deste ano as ações de prevenção ao mosquito <Aedes aegypti.

Em Santo André, a prefeitura informa que tem realizado periodicamente campanhas de conscientização em datas comemorativas e também em acessos de cemitérios e hipermercados. Atualmente, cerca de 73 agentes realizam visitas rotineiras a residências do municípios.

São Bernardo, por sua vez, iniciou as ações de combate ao mosquito Aedes aegypti mais cedo neste ano. Já em agosto foram iniciadas as visitas casa a casa para a identificação de larvas do mosquito nas residências, notadamente na divisa com outros municípios, como o Taboão, e nos bairros onde houve registro de muitas casos da doença, como Alvarenga e Jordanópolis. Aos sábados, as equipes reforçam o trabalho nessas localidades e também retornam às áreas onde foram encontradas casas fechadas ao longo da semana.

Em Mauá, as ações focaram em peças teatrais nas escolas municipais, palestras em empresas e associações de bairros, além dos Programas Cidade Limpa e Mauá Cidade que Avança com exposição de maquetes e intensificação de visitas casa a casa pelos agentes nos bairros. Ao todo, 32 profissionais de Combate às Endemias e 319 agentes comunitários de Saúde realizam as atividades de campo no Programa de Combate ao Aedes aegypti.

Já em Diadema, a Prefeitura informou que mantêm sua rotina de trabalho na prevenção e no combate à dengue, que incluem orientação aos moradores, aplicação de larvicida, monitoramento de alguns locais estratégicos (como ferros-velhos, borracharias e cemitérios), e bloqueios quando há casos confirmados de dengue.

CONSÓRCIO

O Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, que neste ano focou em campanhas nas dividas dos municípios, também já iniciou suas ações de combate ao Aedes aegypti, incluindo campanha publicitária e mobilizações regionais, a primeira delas ocorrida em 10 de dezembro.

Segundo a entidade, a campanha irá ocorrer até maio de 2017 e está orçada para envolver mídia imprensa e externa, redes sociais, material gráfico educativo e eventos.

A expectativa é a de que a entidade invista R$ 2,4 milhões nas ações entre janeiro e abril de 2017. O valor é superior aos R$ 900 mil gasto neste ano. No entanto, o custo ainda deve passar por aprovação dos prefeitos eleitos.

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